Dia de Treinamento: Falavigna luta por glória que nenhuma brasileira conquistou
Fera do taekwondo, Natalia busca um ouro individual inédito entre mulheres
Alexandre Lobo São Paulo
Aplicada e exigente. Quarto lugar nos Jogos Olímpicos de Atenas, campeã mundial em 2005, Natalia Falavigna está sempre disposta a treinar, seja em Londrina (PR), onde mora, ou em São Paulo, onde se exercita com o grupo que representará o Brasil em Pequim. Acompanhada pelo treinador Fernando Madureira e pela preparadora Lilian Barazetti, a paranaense de 24 anos vai se aprimorando técnica e taticamente para tentar o que nenhuma brasileira conquistou antes: um ouro em competição individual.
Natalia no treino tático com Breno Pinheiro. Rival masculino exige mais da atleta
- A Natalia está mais madura, experiente. Ela questiona bastante o que a gente propõe e isso é bom. Ela reclama, você explica, e ela aceita. Prefiro atleta assim, questionador. Ela confia no meu trabalho. E isso é o mais importante em uma equipe - garante o treinador, que cuida da lutadora desde o fim dos Jogos de Atenas.
Marcos Ribolli/GLOBOESPORTE.COM
Natália é vaidosa, mas a produção não pode ser muito grande para o treino
E não foi apenas Natalia que mudou nesses quatro anos. Após a competição de 2004, a Federação Mundial de Taekwondo alterou o tempo de luta, saindo dos três rounds de três minutos para três de dois minutos. Apesar de adaptada às novas regras, Natalia sofreu um acidente de percurso em 2007 ao perder para a mexicana Rosário Espinoza na final dos Jogos Pan-Americanos do Rio. A aplicação que Natalia mostra dentro da área de luta, ela leva também para a sala de aula. Quem garante é a sua preparadora, Lilian Barazetti, que deu aula para a lutadora na Universidade Norte Paraná, onde cursa o sétimo período de Educação Física. - Já tive muitos alunos esportistas, mas nenhum foi como ela. A Natalia sempre foi muito estudiosa e nunca usou do seu status de atleta olímpica para matar aula ou pedir adiamento de prova. Só fazia isso quando era necessário. Ela é motivo de orgulho. O GLOBOESPORTE.COM suou atrás da representante do Brasil na categoria acima de 67kg dos Jogos Olímpicos de Pequim em um dia normal de treino. Além dos também classificados Márcio Wenceslau e Debora Nunes, Natalia contou com o apoio dos companheiros de treino Licínio Soares e Breno Pinheiro, respectivamente primeiro e segundo reservas de Diogo Silva na seleção. Além destes, participou da atividade uma equipe de taekwondo da Coréia do Sul.
Confira galeria de fotos do dia de treinamento com a Natalia
8h
Acordar cedo é tranqüilo para mim. Em Londrina, estou acostumada a acordar às 7h. Está dando para descansar ainda mais em São Paulo.8h50m No café da manhã, costumo comer um queijo branco, um pouco de carboidrato. Apesar de a minha categoria não ter limite de peso, faço sempre um controle alimentar e uso uma balança no quarto para me pesar. Quando eu abuso, meus "alarmes" humanos - o técnico Fernando Madureira e a preparadora física Lilian Barazetti - disparam.9h12m Vou subir para o quarto e arrumar rapidamente minhas coisas. Desço por volta de 9h40m. 9h43m
É... a mala é um pouquinho grande. Levo os protetores de treino, esparadrapo, bolsa de gelo... essas coisas. Só o básico mesmo. Eu me arrumo assim, simples, não me preocupo muito. Mas gosto de colocar um cordão, botar brincos... Mas esses eu tiro antes do treino. 9h51m Aqui em São Paulo, fico mais quieta, no meu canto, antes do treino. Procuro ficar concentrada.
10h
Eu gosto de treinar! Parto logo para o alongamento. O sistema de aquecimento da equipe é um pouco diferente daquele com que estou acostumada. Demora a engrenar. Mas a gente se acostuma. A melhor parte do treino? Todas. Um treino bem dado é o melhor. Sabendo o que você está fazendo e ciente de que vai ser bom para o desenvolvimento, você faz com prazer. 11h05m O treino tático é mais intenso. Você tem que ficar ligado o tempo inteiro. Como diz o Fernando Madureira, meu treinador, o importante desse trabalho é o fator surpresa: encarar situações diferentes.
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Sempre brincalhona, Natalia ri até mesmo após dar uma topada durante o treino
11h13m
Ai, dei uma topada... É uma coisa boba, mas que pode acontecer, ainda mais nesse piso. Mas dá para continuar a treinar. Coloco a sapatilha de treino e continuo.11h20m Saio em busca da enfermeira e de um gelinho para aliviar. Está incomodando... O pessoal daqui é superlegal: cedeu o espaço para a gente e nos recebe muito bem. Infelizmente, agora não vai dar mais. Gelo no pé! 11h40m Ao fim do treino, canto parabéns para uma colega, minha xará Natália, atleta paulista que treina junto com a seleção brasileira. Na conversa com as coreanas, aprendi a cantar "Parabéns pra você" na língua delas. A gente apanha para falar coreano, mas elas também apanham com o português. Se me pedir para repetir o que elas me disseram, não sei. Mal sei falar o nome delas! 11h57m Subo para o quarto que divido com a Lilian (preparadora física). Ela até que é organizadinha, mas eu sou muito chata com isso. O meu quarto tem que ficar sempre todo arrumado. 12h40m
Durante o almoço com Liliana e outros atletas, o assunto é futebol. Eu não me meto muito... Até porque, se falar, depois vou ouvir muito. Sou corintiana, mas não sou roxa. Eu torço, né. Lilian me entrega: 'Ela sabe tudo o que está acontecendo... (risos) 13h45m Não sei se vou poder treinar à tarde, o dedo ainda incomoda. Preciso do aval do fisioterapeuta do Palmeiras, Marcelo Gondo, para voltar ao treino. Quebrei este mesmo dedo durante o treino com o Diogo, em Atenas, nos Jogos de 2004. O doutor Bernardino me levou para o hospital da Vila e juntou aquele monte de médico em volta. Quando viram que eu tinha quebrado, ficou todo mundo triste. Mas eu voltei e lutei (Natalia ficou em quarto lugar, a melhor colocação da história do taekwondo brasileiro em Jogos Olímpicos).
Marcos Ribolli/GLOBOESPORTE.COM
O fisioterapeuta examina o dedo lesionado de Natalia
15h10m
No Palmeiras. o fisioterapeuta Marcelo Gondo começa a analgesia. 'É para não piorar', avisa ele. Já vim preparada com um livro: "Cestas Sagradas", escrito pelo técnico dos Los Angeles Lakers, Phil Jackson. São anos de fisioterapia. Machucar nunca é bom, mas acontece. A fisioterapia é um mal necessário. (Gondo faz cara feia ao ouvir a frase). A vantagem é que a gente sai novinha (risos). 16h18m
Estou conseguindo andar!16h40m Volto ao colégio onde a seleção está treinando. Fico apenas colocando gelo e converso com o técnico Fernando Madureira. Vou ficar só olhando aqui. É melhor eu não treinar hoje para poder voltar inteira amanhã. 17h40m Saio do treino sem muita fome. Trabalho muito com suplementação. É uma antes, outra durante o treino e outra após o treino. Após o segundo treino, espero uma hora para jantar. 20h Em Londrina, eu apenas lancho. Mas aqui é mais difícil, e acabo jantando em quantidade igual a do almoço. Não tenho problema com alimentação, então, como normalmente.23h Não sou muito de balada, mas outro dia a gente saiu para dar risada. Tenho uma prima em São Paulo e às vezes saio para encontrá-la. Mas o normal é eu dormir sete, oito horas para acordar bem no dia seguinte. Espero estar melhor amanhã para voltar a treinar.
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